Armindo Jorge de Carvalho Bião
Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - Nível 1A
Brasileiro de Salvador, Bahia (de 1950), Pesquisador do CNPq, Armindo Bião é Professor Titular Associado, no Brasil, à Universidade Federal da Bahia UFBA, e, na Europa, à Université de Paris Ouest Nanterre La Défense e à Maison des Sciences de l Homme Paris Nord, tendo sido Professor Visitante na Université de Paris Nord Villetaneuse Saint Denis (Paris VIII), de 1997 a 2000, na Université Ouverte des Cinq Continents (Mali, 2005), na Cátedra Valle-Inclán/ Lauro Olmo (Universidad de Alcalá de Henares, Ateneo de Madrid) e no Instituto Politécnico de Leiria (Portugal), em 2007 / 2008 e no Programa ERASMUS MUNDUS em Artes do Espetáculo (universidades Paris Nord Villetaneuse Saint Denis, Nice Sophia Antipolis, Goethe Frankfurt am Main e Libre de Bruxelles), em 2008/2009. Ator e encenador em cerca de 50 obras teatrais e audiovisuais, premiado por seu trabalho em teatro (1980, 2001, 2008) e por suas atividades acadêmicas (1998, 1999, 2007), na Bahia, é também Chevalier des Arts et des Lettres da República Francesa. Licenciado em Filosofia pela UFBA, Master of Fine Arts em Theater Arts/ Acting pela University of Minnesota (EUA), Mestre e Docteur d Université em Anthropologie Sociale et Sociologie Comparée pela Université René Descartes Paris V Sorbonne e Pós-Doutor em Études Théâtrales et Littéraires pela Université de Paris Ouest Nanterre La Défense (França), é ex-bolsista da Fulbright Foundation e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CAPES. Foi o primeiro Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas PPGAC/UFBA (1997 / 2003), Diretor Geral da Fundação Cultural do Estado da Bahia (2003/ 2006) e o primeiro Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas ABRACE (1998 / 2002), da qual é o Coordenador do Grupo de Trabalho de Etnocenologia, desde 2007. Com 80 orientações acadêmicas concluídas, Armindo Bião é um dos criadores de vários grupos de pesquisa (com os quais continua atuando: o Groupe de Recherche sur l Anthropologie du Corps et ses Enjeux GRACE, na Sorbonne, desde 1988; a rede internacional de etnocenologia, na UNESCO, desde 1995; e o Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade GIPE-CIT, na UFBA, desde 1994) e de diversos periódicos: Verbo Encantado, 22 edições de 1971 a 1972; Viver Bahia, 22 edições de 1973 a 1975; Repertório Teatro & Dança, 12 edições desde 1998; Cadernos do GIPE-CIT, 21 edições desde 1998; e Memória ABRACE, 11 edições desde 1999. Atua nas áreas das Artes do Espetáculo (Etnocenologia, Interpretação Teatral, Teatro de Cordel, Treinamento com Máscaras) e da Cultura Baiana (Matrizes Estéticas e RelaçõesI nternacionais).
(Texto informado pelo autor)
I. Entrevista Prof. Armindo Jorge de Carvalho Bião
1 – Professor Bião, eu gostaria de começar com uma pergunta bem coloquial. Eu creio que ir ao teatro seja uma atividade de lazer rotineira para muitos pesquisadores dos mais variados campos da ciência. Como é “ir ao teatro” para um pesquisador 1A da própria área?
De início, eu gostaria de compartilhar da sua crença, de “que ir ao teatro seja uma atividade de lazer rotineira para muitos pesquisadores dos mais variados campos da ciência”. Eu gostaria mesmo que se tratasse de “uma atividade de lazer rotineira” para “muitos pesquisadores dos mais variados campos da ciência”.
Para mim, “ir ao teatro” são várias coisas a um só tempo, entre o prazer, o lazer, o dever, o rever a família, o honrar numerosos convites e o contínuo aprender.
Nos últimos meses, por exemplo, tive o prazer de cumprir meu dever de pesquisador e convidado, indo ver espetáculos com dramaturgia e direção de ex-bolsistas de Iniciação Científica que tive aqui na UFBA. Refiro-me aos espetáculos Jeremias, o profeta da chuva e Doralinas e Marias, respectivamente de Adelice Souza e Cecília Raiffer, ambos premiados, que me confirmaram seus talentos e revelaram belezas e ensinamentos, que agora, tento incorporar a meu repertório.
Mais recentemente, tive a alegria pura do lazer, associada ao prazer do dever, do convite e do aprendizado, de presenciar o espetáculo Uma vez nada mais, dirigido por minha colega da Escola de Teatro da UFBA, Hebe Alves, cujo mestrado tive a honra de orientar, e que tem no elenco duas ex-alunas minhas do Bacharelado em Artes Cênicas, com Habilitação em Interpretação Teatral, também da UFBA, Aícha Marques e Maria Menezes, esta última minha ex-bolsista de Iniciação Científica. Neste caso, soma-se a tudo mais um perigoso sentimento de orgulho e vaidade, ainda que também maravilhoso, por conta de algo que é estruturante em nossa arte de apresentar e representar perante o público, que é o reconhecimento de nosso trabalho pelo outro. No camarim, após o espetáculo, Aícha batia em seu braço e me dizia, mais ou menos, o seguinte: “na veia, professor, aquilo que trabalhamos juntos em sala de aula [então nas belíssimas salas dos pavilhões Oeste da antiga Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus], naquela idade [há mais de 15 anos], na hora certa, de decompor o movimento e compartilhar a atenção com o parceiro de cena e o público, está aqui, na veia”.
“Ir ao teatro” para mim é também como ir a um laboratório. Trata-se de uma contínua experimentação, de experiência e expressão, de apetências e competências, de projetos baseados na reflexão do trajeto que fazemos, enquanto pesquisadores, de nós mesmos, enquanto sujeitos, aos objetos de nossas pesquisas. Trata-se assim, finalmente e, sobretudo, de um contínuo aprendizado.
É o que me leva, neste meio de novembro, a programar a ida aos teatros: do SESI, para o espetáculo Caso Sério, Cabaré dos Novos no Vila Velha, para o espetáculo Sobre Flores no Asfalto Quente, e XVIII, para o espetáculo O cravo e a rosa, para reencontrar meus ex-alunos (alguns dos quais também ex-bolsistas de Iniciação Científica), colaboradores e atores: Cláudio Simões (com três peças de sua autoria, simultaneamente, em cartaz, em Salvador), Celso Júnior, Luciana Comim e Evelyn Buchegger, entre outros.
“Ir ao teatro” é, quase sempre, assim, rever a família, mesmo quando me encontro longe daqui de casa, na Cartoucherie de Vincennes, na região parisiense, num espetáculo do Théâtre du Soleil, ou no Guthrie Theater, de Minneapolis, por exemplo. O difícil é poder aceitar todos os convites e acompanhar tudo que colegas e ex-alunos fazem aqui em Salvador. Quem faz teatro, quando está em fase de ensaios e em temporadas, tem dificuldade de ir ao teatro. Mas ultrapassar essa dificuldade pode ser um deleite.
2 – Professor, como podemos comparar o peso, ou a importância “do Teatro” e da “Pesquisa em Teatro” da Bahia no contexto nacional?
Meu amigo Jean Duvignaud, o grande sociólogo do teatro francês falecido em 2007, um dos líderes do movimento de descentralização do teatro na Europa, dos anos 1950, que presidiu meu júri de doutorado, na Sorbonne, em 1990, e me convidou para a criação da etnocenologia, na UNESCO, em 1995, dizia que o teatro, enquanto atividade profissional, contínua, regular e permanente, é fenômeno de metrópoles, onde há gente com tempo e dinheiro para financiar os artistas.
Salvador, a terceira metrópole brasileira, ainda que bem menor que São Paulo e Rio de Janeiro, um dos polos da descentralização do teatro brasileiro, exatamente por conta da criação da Escola de Teatro da Universidade, em 1956 e, pouco depois, do Teatro dos Novos e do Teatro Vila Velha, este já em 1964, nos últimos 20 anos, vem dando fortes sinais de um início de efetiva profissionalização, no sentido da definição de Duvignaud.
Em termos de efetiva formação de gente para o teatro, a Bahia já se encontra em posição muito mais favorável, como se pode observar pelo sucesso, no teatro, na televisão e no cinema, em nível nacional, do pessoal formado por aqui. Na pesquisa, nossa posição é ainda muito mais privilegiada.
De fato, nosso programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, implantado em 1997, após quatro anos de consolidação do nosso Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade, o GIPE-CIT, criado em 1994, numa colaboração da Escola de Teatro com a Escola de Dança da UFBA, é hoje, de acordo com a avaliação de nossos pares, promovida pela CAPES, o melhor do país. A qualidade e quantidade de nossas pesquisas, correspondem com a nossa expressiva liderança nacional (a Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas - ABRACE, foi criada em 1998 e teve sua sede aqui até 2002) e efetiva inserção internacional.
Aliás, vale uma referência à inspiração que tivemos para a criação da ABRACE. Nossos contatos eventuais, fruto do acaso e da necessidade, com colegas do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, líderes nacionais na criação da ABRASCO (Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Saúde Coletiva), em particular Naomar de Almeida Filho e Maurício Barreto, nos programas da Fundação Kellogg e nos restaurantes soteropolitanos da área do Canela, foram muito estimulantes.
Assim como, também, a brevíssima, porém densa e bem propositiva, convivência, nas águas da Baía de Todos os Santos e alhures, com profissionais da área da psicanálise, como Denise Coutinho e Euvaldo Mattos, foi importante complemento para minha pequenina, porém, reconheço sem falsa modéstia, positiva participação e contribuição para o peso específico, ou a grande importância “do Teatro” e da “Pesquisa em Teatro” da Bahia no contexto nacional. Os eixos estruturantes, anteriores, passaram pela Escola de Dança da UFBA, nas figuras de Rolf Gelewski e Dulce Aquino, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, nas figuras de Rui Simões e Romélio Aquino, no Teatro Vila Velha, na presença magistral de João Augusto Azevedo, e no mais antigo Departamento de Teatro universitário norte-americano, o da Universidade de Minnesota, nas pessoas de Robert Moulton e Barbara Mc Intyre.
3 – Como o Sr. vê a percepção dos cientistas de áreas mais tradicionais e dos demais cidadãos da pesquisa em teatro?
Aqui só posso falar de minha impressão dessa percepção. Os cientistas de áreas mais tradicionais e os demais cidadãos, que ainda desconhecem a pesquisa em teatro, se surpreendem que isso exista, o que é bem compreensível. Os que sabem de sua existência, aparentemente, há os que desconfiam de sua relevância, mas há os que a reconhecem.
Entre esses, vale destacar os colegas da UFBA, do CNPq e da FINEP, que, por exemplo, compreenderam a importância da restauração, ampliação e atualização cenotécnica de nosso principal laboratório, o Teatro Martim Gonçalves, antes conhecido como Teatro Santo Antonio. Foi o Ministério da Ciência e da Tecnologia que financiou sua reforma, e não o MEC ou MinC, como se poderia pensar. Foi o fato de termos essa necessidade, de reforma de nosso laboratório mais importante, reconhecida como prioridade institucional para a UFBA, em função dos programas CT-INFRA e, em termos nacionais, aceita como justificada ação – veja só – em prol da ciência brasileira, que esse nosso laboratório, da área das Artes do Espetáculo, mereceu expressivo financiamento da ordem de quase três milhões de reais.
4 – Quais são os maiores desafios para um pesquisador de sua área e como o Sr. acha que eles se comparam aos desafios de um pesquisador em áreas tradicionais como a física ou a sociologia?
Promover comparações individualmente é sempre um grande risco. Seria, talvez, pertinente, promovermos um fórum como alguns já realizados em outros países, reunindo regularmente, durante alguns meses, pesquisadores das áreas das artes, da física e da sociologia, por exemplo, para conversarem sobre si e os outros e compartilharem dúvidas e interesses. A própria crise da distinção entre ciências do espírito (Geistwissenschaften) e ciências da natureza (Naturwissenchaften), expressa entre outras coisas, o desenvolvimento das neurociências, ou cada vez mais frequentes as proposições de caráter, multi, inter e transdisciplinares e, por outro lado, o recurso à metáfora poética por parte da astrofísica (o que seria mesmo um “buraco negro”?), sugerem a dificuldade dessas comparações.
No entanto, o maior desafio para a pesquisa em nossa área é a necessária integração de arte e ciência, teoria e prática, crítica e criação. Com nossa proposição da etnocenologia, tentamos enfrentar este desafio, organizando, em termos epistemológicos e metodológicos, projetos de pesquisa estruturados sobre nossas apetências e competências enquanto sujeitos de experiência e expressão e sobre uma reflexão que considere com estranhamento e distanciamento (ou aquilo que Bertolt Brecht chamou de Verfremdungseffect) o trajeto que desenvolvemos de nós mesmos, enquanto sujeitos, até nossos objetos de pesquisa, com o qual somos, habitualmente, tão implicados.
Por outro lado, a distinção operacional entre criação e crítica, talvez o foco central de nosso desafio, nos leva a planejar as pesquisas em termos de ações consecutivas e alternadas, posto que, muito dificilmente, a crítica, mesmo a mais criativa, tende a confundir, complicar e dificultar a criação.
Já no que se refere à teoria e à prática teatral, vale lembrar que ambos os fenômenos e as palavras que os designam na tradição greco-romana surgiram ao mesmo tempo e no mesmo lugar. De fato, a partir das primeiras dissecações de cadáveres e da simplificação das formas escritas da língua, com a criação de um pequeno e facilmente acessível alfabeto “fonético” (representando a fala), na Grécia do Século V A.C., quando se passou a valorizar o sentido da visão como o mais humanamente refinado e o mais refinadamente humano, pôde-se pensar na separação do sujeito de um objeto que ele observa (a teoria) e na construção de um espaço em função do olhar dos outros (o teatro).
É o início organizado do antropocentrismo e da pedagogia. E o teatro e a teoria, gêmeos de berço, iriam, progressivamente, ao longo da história do Ocidente, se separar entre si e contribuir, paradoxalmente, para o desprestígio da imagem e do imaginário... Na contemporaneidade, na qual a imagem e o imaginário deixaram de ser os “loucos” da casa, ou “do pedaço” e, sobretudo a primeira, se transformou em rainha e imperatriz onipresente, o desafio é reaproximá-los, o teatro e a teoria, o que já vem ocorrendo, inclusive na cena e no palco, nossos mais tradicionais laboratórios.
5 – O Sr. tem uma formação bastante variada, inclusive com dois mestrados (um em Artes Cênicas e outro em Antropologia), além de um doutorado também em Antropologia. Qual a importância dessa formação multidisciplinar na sua atividade de pesquisador na área de teatro?
O artista, em geral, não carece de formação acadêmica, embora se encontre, quase sempre, como o universitário e qualquer outro ser humano, de modo mais amplo e irrestrito, na corda bamba, entre os mundos do concreto e do imaginário. Já o artista universitário se propõe um extremamente perigoso e maravilhoso desafio, o de além de fazer arte, refletir e produzir conhecimento letrado sobre ela.
Meu trajeto pessoal (por conta de minhas experiências, apetências e competências) associou, desde muito jovem, o interesse acadêmico ao artístico. Foi muito difícil e duro ter tantas questões em aberto e tantos interesses aparentemente contraditórios. Mas acho que aí reside o trunfo dessa formação transdisciplinar, o de estar sempre com novas questões em aberto. É isso que move a pesquisa, não a certeza, que a bloqueia.
Quem já sabe tudo não pesquisa ou não precisa pesquisar. Eu preciso, quero, gosto e devo pesquisar e, sempre, como nas artes do espetáculo, em grupo, ou alternando a solidão eventual da escrita com a convivência necessária na cena e na plateia, respondendo perguntas e criando novas questões. A gente de teatro é muito gregária, até leituras nos habituamos a fazer em conjunto. E também somos muito tateantes, testando erros e acertos, transformando defeitos em efeitos, repetindo, ensaiando, perguntando, respondendo e perguntando de novo, correndo riscos e ampliando horizontes, o que só funciona mesmo no trabalho em grupo. E eu amo trabalhar com os outros. É a ética de minha estética.
6 – Que posição a UFBA tem no contexto nacional de pesquisa em teatro?
A UFBA é líder nacional na matéria. Possuímos o programa de pós-graduação com melhor avaliação na área (o único com conceito 6 da CAPES) e reunimos o maior número de bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq numa só universidade (cerca do dobro da universidade que detém, após a UFBA, o maior número de bolsistas), o que corresponde aproximadamente a um terço do total de bolsas concedidas para a área no País.
7 – O Sr. vê alguma sub-área da pesquisa em teatro como mais promissora para o futuro? O Sr. percebe alguma “agenda de pesquisa” na área para os próximos anos?
Além da etnocenologia, que tem se fortalecido através da realização de colóquios internacionais (dois dos seis já realizados, entre o Brasil, a França e o México, tendo acontecido em Salvador-BA), através do crescimento do Grupo de Trabalho de Etnocenologia (http://www.etnocenologia.org/) da ABRACE e da proposição de disciplinas de graduação e linhas de pesquisa de pós-graduação específicas em diversas universidades brasileiras, creio que as subáreas da dramaturgia e dos processos criativos também podem ser vistas como promissoras.
Talvez, nossa “agenda de pesquisa” se situe no âmbito da própria área das artes e de suas interfaces com as ciências sociais (a antropologia, a sociologia, a história e a educação, em particular), as ciências sociais aplicadas (sobretudo a comunicação) e as neurociências. No âmbito estrito de nossa área, essa “agenda de pesquisa” passa pela integração e fortalecimento de nossas subáreas, como a dança, o teatro e o circo, por exemplo, bem como por sua distinção e articulação, em termos de política acadêmica.
8 – Professor Bião há alguma pergunta que não tenha sido feita e que o Senhor julgue importante para os objetivos da Coluna do Pesquisador do Mês?
Ah meu caro colega Rogério Quintella, uma possível questão, talvez, poderia ser se eu não tenho medo do ridículo e de parecer cabotino... minha resposta seria sim. Mas eu também acrescentaria que atores têm sempre medo disso, mas que sempre, também, ousam correr esse risco.
Por exemplo: atender a convite de um ex-aluno para fazer uma personagem feminina, que foi o que me propôs Vinício de Oliveira Oliveira e A Outra Companhia de Teatro, um dos grupos residentes do Teatro Vila Velha, em 2007. De início, essa proposta me apavorou e, também, me excitou. Zeami, o ator e teórico do Nô japonês, já escrevera “que o artista da cena, ao longo de seu necessário envelhecimento em contínua formação e, querida e esperada, longa carreira, deve representar, pelo menos, um ancião, um guerreiro e uma mulher, cultivando a flor insólita, aquela flor que brota fora da estação da bela juventude, quando a flor é naturalmente bela.”
Aceitei o desafio, porque logo estabeleci um vínculo claro com meu projeto de pesquisa em curso, que constrói e analisa um repertório de dados históricos, poéticos, musicais e teatrais, sobre a transformação da personagem histórica Doña María de Padilla, do século XIV, em pombajira da umbanda brasileira do século XXI, protetora das mulheres com mal de amor (com a personagem proposta), com vistas à criação de cenas e espetáculos.
E – olha aí a maravilhosa e perigosa vaidade do ator – ganhei o Troféu Brasken de Melhor Ator Coadjuvante na Bahia de 2008, coadjuvante de muitos jovens. Assim vejo a pesquisa e a formação em minha área, pensando na história da literatura de cordel que, na península ibérica, em certo tempo, foi outorgada aos cegos como privilégio. Sem nada ver, eles foram à memória oral de uma vasta tradição cultural, mas seus olhos eram seus jovens guias. Eles, os cegos e mestres, naturalmente mais velhos, atualizavam sua curiosidade no convívio de interdependência com esses jovens.
É dessa relação que nasce a pesquisa em nossa área. Grotowski dizia que, nas artes do espetáculo, “todo mundo é filho de alguém”. De fato, aqui, todos dependemos de muitos outros, dos mais velhos aos mais novos, sempre...
II. Depoimento: Prof. Naomar de Almeida Filho
1973 foi o ano em que conheci Armindo Jorge de Carvalho Bião. Naquela época, a cena cultural de Salvador experimentava uma rica e peculiar conjunção de vetores. De um lado, ecos avant-garde resultantes da Universidade edgardiana, refinada e erudita, ainda se faziam ouvir: concertos de música contemporânea, experimentos de teatro e dança, concursos literários, cinema renovando-se. De outro lado, a luta política e ideológica contra o regime militar, endurecido e ufanista, produzia sons abafados pela clandestinidade e pela repressão.
Mas havia um terceiro lado, colorido e caótico, onde o tropicalismo e a contracultura provocavam e animavam passagens ao ato e transgressões. Daí emergiam iniciativas espontâneas, pessoais e grupais, declaradamente voluntaristas, como viver em comunidades ou transformar a própria casa em espaço cultural. Marilyn Miranda e Boi Aruá, Kohoutek e Smetak, Arembepe e Machu Pichu, ICBA e Juliano Moreira. Encontrei Armindo Bião pela primeira vez num espetáculo multi-arte dança-teatro-música-luz, por ele dirigido, produzido e interpretado, em sua casa-cenário na Vila Matos. Nesse lugar, Bião já transbordava talento, criatividade e ousadia.
Conheci-o melhor quando trabalhamos no Departamento de Política Cultural da Bahiatursa, sob o comando de Eulâmpia Reiber, ajudando a promover eventos e estudos que combinavam pesquisa operacional, etnologia, animação cultural e consultoria de projetos oficiais. No início dos anos 1980, já integrado à UFBA, coordenei uma série de seminários da Fundação Kellogg, recebendo bolsistas internacionais numa programação itinerante de exposição à cultura brasileira. Convidei Bião para compor nossa equipe, contribuindo com seu amplo conhecimento do campo artístico e cultural baiano. Ao relembrar esse período, ainda me impressiona sua maravilhosa performance na superação de vicissitudes e contingências, inevitáveis em encontros e choques de estrelas acadêmicas. Bião demonstrava grande senso de responsabilidade, inventividade, firmeza, bom humor e presença de espírito.
A partir daí, convivi com Bião como amigo e colega na Universidade Federal da Bahia, quando pude acompanhar sua eficiência como liderança intelectual e construtor institucional. Armindo Bião de fato abriu, cultivou, fomentou e consolidou um novo campo de conhecimento, a etnocenologia, introduzindo aos estudos das artes cênicas o dinamismo e o rigor da pesquisa etnográfica mais atualizada. Nesse percurso, organizou grupos e linhas de pesquisa dentro e fora da Bahia; implantou dois periódicos na área; fundou a Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas (http://www.portalabrace.org/portal); concebeu a proposta e liderou a implantação do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, integrando docentes e pesquisadores das áreas de dança, teatro, letras e ciências humanas. Este programa, simultaneamente com a Pós-Graduação em Saúde Coletiva (que, por coincidência, é minha vinculação primária), tornou-se o primeiro curso de Mestrado/Doutorado da UFBA a atingir o almejado grau 6 da CAPES. Bião muito tem contribuído com o projeto de internacionalização da UFBA, especialmente no âmbito do Collège Doctoral Brasil-França (co-tutela em doutorados com dupla titulação UFBA-Universidades francesas) e do Programa Erasmus Mundus, sendo membro docente e pesquisador do consórcio das universidades Libre de Bruxelles, Goethe Frankfurt am Main, Nice Sophia Antipolis e Paris Nord Villetaneuse Saint Denis, no campo das artes do espetáculo. Como docente, pesquisador e gestor universitário, Bião esbanja inteligência, competência, produtividade, energia e compromisso com a instituição.
Mais que justa, oportuna e merecida esta homenagem que nossa Universidade presta a um dos seus mais importantes pesquisadores e criadores.
Naomar de Almeida Filho
(ISC/UFBA, Pesquisador I-A CNPq)
III. Depoimento: Prof. João José Reis
Conheci Armindo Bião atuando nos palcos baianos nos tempos heróicos do teatro no Brasil, sob a ditadura militar, no início dos anos 1970. Acompanhei também sua colaboração com a imprensa alternativa da época. Bião era uma figura marcante da contracultura da Bahia. Nesses tempos ainda não o tinha conhecido pessoalmente. Foi somente em 1980 que o encontrei, ambos estudantes de pós-graduação na Universidade de Minnesota, em Minneapolis, nos Estados Unidos. Ele fazia seu Mestrado, eu ali retornava depois de dois de pesquisas no Brasil, para escrever a tese de doutorado. Ele, eu, Cicinha e nosso filho, que hoje também faz doutorado em Teatro na UFBA, nos tornamos amigos. A turma incluía amigos trazidos por ambas as partes para o convívio comum, como Deolindo Ceccucci, também professor da UFBa, que frequentemente subia de Iowa, onde fazia seu pós em Teatro, para visitar Bião. Tinha também um casal afro-americano, Musa e Márcia -- ele, meu colega no Departamento de História -- de quem Bião e eu lembramos com carinho quando falamos daqueles tempos. Acompanhávamos de perto a vida acadêmica de Bião, que era de uma disciplina admirável para o trabalho, com o qual, aliás, nos envolvíamos às vezes diretamente, por exemplo, a “bater texto” das suas falas nas peças que ele encenou como parte de sua formação na Universidade de Minnesota. Em seguida, claro, íamos todos aplaudi-lo. Bião também acompanhava meu trabalho de produção da tese de Doutorado sobre a revolta dos malês na Bahia, em 1835. Resolvemos, inclusive, juntar nossas experiências e começamos a escrever uma peça a respeito da famosa revolta escrava, exercício que não saiu primeiro ato. Por enquanto.
De volta à Bahia, continuamos a manter contato até que ele seguiu para a Europa para cumprir seu programa de Doutorado. Nunca perdemos de vista um do outro, mas, diferente dos tempos de Minnesota, nosso contato tornou-se menos freqüente. Não deixei, porém, de acompanhar à (pouca) distância sua brilhante carreira universitária, da qual a UFBA foi grande beneficiária e deve dela orgulhar-se. Pois Bião virou uma figura de proa da cena teatral no circuito universitário – das artes cênicas, de fato -- no Brasil. Instalou e dirigiu durante anos a pós-graduação em Artes Cênicas na UFBa, uma das mais importante no país, e fundou a Associação Brasileira de Artes Cênicas – ABRACE. Seu talento o levou a circular nacional e internacionalmente. Tem organizado seminários principalmente no circuito Brasil/França, de um dos quais, aqui na Bahia, tive o prazer de participar. Em reconhecimento à sua influente presença, foi membro do Comitê Assessor do CNPq para sua área. É bastante conhecida sua adesão à multidisciplinaridade, desde uma época em que essa via de criação do conhecimento não tinha muita vez no Brasil, inclusive em nossa universidade. Nesse sentido, é talvez o principal representante da Etnocenologia no país, disciplina (multidisciplina?) que procura integrar antropologia e artes cênicas, saber acadêmico e conhecimento popular. Armindo Bião é sem dúvida um dos grandes nomes da UFBA, que faz muito bem em homenageá-lo.
João José Reis
Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - Nível 1A
Professor Titular do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia